quantos me ouviram

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

ô sodade grande da minha Paraty...


Então, éramos quatro, há 51 anos... eu e o poeta.


Eu era dois
Leonardo Fróes

Se a busco na memória, já descrente de poder alcançá-la, meio século depois, constato que minha juventude são duas.

A primeira, vivida em grandes metrópoles, tem por signo o fogo. Quem a representa, cheio de ambições e obstáculos, é um migrante rebelde de temperamento explosivo. Parece em franca dissonância com a sociedade que o cerca e, a seu ver, o oprime. Mal ele sabe, enquanto rola pelo mundo e procura, ávido, saber um pouco de tudo, as razões de sua angústia. O vulcão que traz no peito estaria enraizado nos seus sentimentos confusos?

Minha segunda juventude tem por signo a água. O jovem que a ela se associa, e que surgiu com a descoberta das cachoeiras e rios, deu um banho de alegria nas formulações do primeiro – aquele que se consumia e exaltava nas delícias do fogo.
Com isso, quero dizer que aos 30 anos, ainda audacioso, mas já cansado de muita confusão e tendo alguém ao meu lado, eu disse adeus às luzes da cidade e me embrenhei pela aventura no campo que continua até hoje, quando acabo de chegar aos 70.

Não fomos os únicos. Na época, era moda ir viver um grande amor no mato. Back to nature, deve ter dito o primeiro personagem da minha juventude que se duplicou renovando-me.

Para a grande maioria, a fuga da cidade para o campo não durou mais que um verão. Ou o amor ou a grana ou o tempo de curtição acabava e era preciso voltar para a cidade, onde cada um foi completar seu destino.
Eu, que podia viver de traduções e artigos – e que tinha um projeto a longo prazo –, fui ficando na terra.
O migrante rebelde que havia sido, obcecado pelo conhecimento literário e pela acumulação de cultura, tivera pouca visão das coisas práticas. Não sabia, por exemplo, pegar na enxada. Nunca tinha sabido desatolar um carro na estrada, sozinho na noite escura.

Já o segundo jovem, que passou a existir quando, com a livralhada, a papelada dos trabalhos, meia dúzia de gatos e uma porção de sementes, me instalei no sítio, desde então enfrentou todos os dias, para garantir sua sobrevivência modesta, uma infinidade de problemas assim.

Ou era a luz que pifava, e ele aprendeu a consertar. Ou a água que faltava, e ele subia morro acima para desentupir a mina. Ou algum destes flagelos do campo – seca, formigas, fogo, gafanhotos ou vacas – que vinha devorar as mudinhas das sementes que ele ia plantando.

Meu projeto a longo prazo era escrever meus poemas e, sem ter dinheiro para agir de outro modo, reflorestar eu mesmo, pouco a pouco, toda a área que estava então devastada. Os poemas agora estão por aí. A devastação tornou-se, tantas décadas depois, um pequeno paraíso de árvores monumentais.
O que mais fazia falta ao primeiro jovem que fui – um pouco, ao menos, de paciência – o segundo começou a aprender ao participar com todo o corpo do que acontecia ao redor: a germinação das sementes, a brotação das primeiras folhas, a frutificação de uma árvore, o lento e delicado amadurecer de um encontro. A simples sucessão de sol e chuva.
Como as flores se abrem, os fios dos sentimentos vulcânicos, numa vida recolhida, frequentemente se desembaraçam por dentro, e é grande o alívio.

Ter tido duas juventudes redobra- -me de gratidão pela vida. Opostos na aparência, meus parceiros no entanto se conciliaram em mim. Quer plante árvores, quer palavras, faço ainda hoje o que ambos me permitem fazer.

O primeiro, o do fogo na cidade, escreveu: “Ir se dando em despedida / como se a qualquer momento / fosse dar fim à vida”. O segundo, o da água no campo, disse: “Só as aves entendem / o que estou olhando ao longe / sem pensar mas sentindo / minha insignificância perfeita”.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Pros Cearenses

Me disculpem o cearês, mas é qui foi assim, qui ontonti mi veiusonhu.
Torvez, tenha assim sunhado, a modu prutagunista cê ciarense i eu, tê sunhado um sonhu musical: um sonhu di cordel, um sonhurrepente.
Logu nu princípu  du sonhu, uma voz mandô eu cordá i pegá um lápis, amodemealembrá dispois, cunducordá. Mas u sonu matrero, mi correntô, misami, pur causo di que, ele num quiria, era nunca pará di sunhá.
Si parecê, intonce, procê, qui to dimbromação, eu já ti digo qui tô mermo. Tô tentano di dá um tempinho pra minha cachola sialembrá du sonhu. A me discupe a sinceridá.
Chegu eu, nu sonhu, nu portãu di meu cumpadi. Cumpadi di feição, não di padrinhamento. Logu ele me manda entrá, e cumeça a mostrá as arti. Um montão delas. Tinha alguém cum a gente, mas o sonhu não me disse quem que era não. Devia di sê um dos fios dele, já grande, qui mostrava as coisa toda também, com muchorgulho. Tava todo mundo feliz entre um montão di bunequinhos culoridos; de renderas i cangaceros i, fitinhas i santinhos.
Perguntei da patroa, qui queria cunhecê. Cumpadre diz qui é mucureba, qui gosta só da cuzinha. Lá fui sem convite e vi senhora morena, bunita de simpática! Cabôca danada de aprumada!  Cum surriso laaaaargo, mas pidindo discupa pela bugunça. - Arrégua, se aperrei não, minhamiga, qui bugunça di cuzinha, cumbina com buchada, baião de dois, mocotó i cabidela.
Cumpadi me chama pra dentru dum carro (o seria duma jangada? Não me alembro. Divia di te pegulápis) que sobe a paredi colorida di fitas, qui mais paricia uma cascata di cô. E lá fumos nós: eu, ele i o mulequi, supostu fio, na muntanha russa, cachuera di cô. A gente se abriu de felicidade no arco-iris da parede.  Sonhu locu dos qui num taca pedra, só baba, de ri. Locu bom, locu do bem.
Macho véi, amigo meu, nuncaquitive um sonhu mais culorido, mais cheroso e mais abrido. Baião da peste!